Doenças mentais associadas ao uso excessivo de tecnologias
Por Silvino Teles Filho*
O avanço acelerado das tecnologias digitais transformou profundamente a forma como nos comunicamos, trabalhamos e nos relacionamos. Smartphones, redes sociais, jogos online e plataformas de streaming trouxeram benefícios inegáveis, como acesso rápido à informação e maior conectividade. No entanto, o uso excessivo e desregulado dessas tecnologias tem sido cada vez mais associado ao desenvolvimento ou agravamento de transtornos mentais.
Um dos quadros mais discutidos atualmente é a dependência digital, também chamada de uso problemático da internet. Embora ainda não seja formalmente classificada como um transtorno independente em manuais diagnósticos como o DSM-5, esse padrão comportamental envolve perda de controle sobre o tempo de uso, prejuízos acadêmicos, profissionais e sociais, além de sintomas semelhantes aos observados em dependências químicas, como abstinência, irritabilidade e compulsão.
A ansiedade é outro transtorno frequentemente associado ao uso intenso de tecnologias. A hiperconectividade, a pressão por respostas imediatas e o medo constante de estar perdendo algo importante — fenômeno conhecido como fear of missing out (FOMO) — contribuem para níveis elevados de tensão psicológica. A chamada nomofobia, caracterizada pelo medo intenso de ficar sem o telefone celular, é um exemplo cada vez mais comum desse impacto.
A depressão também apresenta forte correlação com o uso excessivo de redes sociais. Plataformas como Instagram e TikTok estimulam comparações constantes, exposição a padrões irreais de sucesso e estética, além de reforço por curtidas e visualizações. Esses fatores podem intensificar sentimentos de inadequação, baixa autoestima e isolamento social, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.
Distúrbios do sono são outro efeito relevante. A exposição prolongada às telas, sobretudo à noite, interfere na produção de melatonina, prejudicando o ritmo circadiano. A insônia, por sua vez, aumenta o risco de irritabilidade, déficit de atenção, ansiedade e sintomas depressivos, criando um ciclo de adoecimento mental.
Além disso, observa-se impacto significativo em quadros como TDAH, principalmente em crianças e adolescentes. O consumo contínuo de conteúdos rápidos e altamente estimulantes pode dificultar o desenvolvimento da atenção sustentada, do autocontrole e da tolerância ao tédio, exacerbando sintomas de desatenção e impulsividade.
Diante desse cenário, torna-se fundamental promover o uso consciente e equilibrado da tecnologia, com limites claros, pausas regulares e incentivo a atividades offline, como exercícios físicos, convivência social presencial e práticas de autocuidado. A educação digital, aliada à atenção de profissionais de saúde mental, é essencial para prevenir o adoecimento psicológico e garantir que a tecnologia seja uma aliada — e não um fator de risco — para a saúde mental.
*Médico com Pós Graduação em Psiquiatria e Neurologia Clínica
