“Nunca imaginei”: câncer atinge pessoas cada vez mais jovens
Caso de pernambucana diagnosticada com câncer de mama aos 38 anos reflete tendência revelada em estudo científico de aumento do câncer de início precoce
“Eu nunca imaginei que poderia desenvolver câncer de mama”. A frase é da pernambucana Deborah Ghelman, diagnosticada com a doença em 2025, aos 38 anos de idade.
Fotógrafa e mãe de dois filhos, Deborah começou a notar os primeiros sinais do câncer ao fazer o exame de autotoque e relata que, na época, ficou surpresa com o diagnóstico. “Eu nunca suspeitei da doença, porque não tem nenhum caso na minha família, então jamais imaginei que poderia desenvolver câncer, até que no ano passado senti um caroço na mama e fui procurar ajuda médica”, afirma.
No dia 4 de fevereiro, celebra-se o Dia Mundial de Combate ao Câncer e, apesar da surpresa para a fotógrafa, casos de jovens adultos diagnosticados com a doença são mais comuns do que parece. Um estudo publicado em julho de 2025 na revista científica Cancer Discovery revelou o aumento na incidência de 14 tipos de câncer em pessoas abaixo de 50 anos entre os anos de 2010 e 2019 nos Estados Unidos – entre eles, o colorretal, mama, pâncreas, rim e corpo renal, fígado, esôfago, vesícula biliar, útero, ovário, tireoide, estômago, nasofaringe, traqueia e próstata.
Um relatório da American Cancer Society, publicado em 2024, mostra que o câncer de mama tem avançado mais rapidamente entre mulheres brancas abaixo dos 50 anos: as taxas de incidência cresceram, em média, 1,4% ao ano, frente a 0,7% ao ano entre mulheres com 50 anos ou mais, no período de 2012 a 2021.
Segundo a oncologista do Hospital Santa Joana Recife, da Rede Américas, Cristiana Tavares, o diagnóstico de Deborah faz parte de um fenômeno mundial chamado early-onset cancer. “Vários tipos de câncer têm apresentado aumento de incidência em pessoas com menos de 50 anos nas últimas décadas, um fenômeno chamado de câncer de início precoce ou ‘early-onset cancer’”, diz a especialista.
Ainda segundo Cristiana, a causa do aumento da doença em pessoas menores de 50 anos é multifatorial. “Apesar do risco absoluto ainda ser menor do que em faixas etárias mais avançadas, as tendências mostram aumentos importantes em certas neoplasias (proliferações celulares anormais que formam tumores). Nenhum fator isolado explica o fenômeno; o que vemos é a convergência de mudanças biológicas, comportamentais, ambientais e diagnósticas ao longo das últimas décadas”, explica a médica.
Independentemente do tipo de câncer ou da idade em que o paciente realizou o rastreamento, a melhor forma de combatê-lo é por meio do diagnóstico precoce. Em jovens, o diagnóstico costuma ocorrer em estágios mais avançados, devido a uma combinação de diversos fatores estruturais, culturais, clínicos e biológicos. “Pensamentos como ‘não pode ser nada grave, porque sou jovem’ é comum em pacientes abaixo dos 40 anos, o que infelizmente atrasa o diagnóstico. É sempre importante lembrar que idade jovem não protege contra câncer, apenas ‘protege’ contra a suspeita”, alerta Cristiana Tavares.
No caso de Deborah Ghelman, a história foi diferente. Ela buscou apoio profissional assim que notou os primeiros sinais. “Eu senti o caroço em maio de 2025 e já marquei um mastologista. Em julho, eu já tinha o diagnóstico e comecei o tratamento em agosto fazendo uma cirurgia de remoção completa do tumor. Em setembro, iniciei a quimioterapia”, relata a fotógrafa.
Prevenção não deve começar apenas na idade de risco da doença
Além do diagnóstico precoce, outra estratégia contra o câncer é a prevenção, que envolve tanto exames de rastreamento — mamografia (mama), papanicolau/vacina HPV (colo do útero), colonoscopia (colorretal), PSA (próstata), entre outros — que levam em conta critérios como idade, gênero e histórico familiar, quanto a adoção de hábitos saudáveis, que podem ser incorporados desde cedo, independentemente do perfil da pessoa, como não fumar (incluindo narguilé e vape), manter o peso adequado, praticar exercícios regularmente, investir na saúde mental, tem uma boa qualidade de sono, alimentar-se de forma equilibrada e proteger-se do sol.
Respostas ao tratamento são diferentes a depender da idade
Pacientes oncológicos com menos de 50 anos geralmente apresentam melhor tolerância ao tratamento e maior capacidade física para suportar procedimentos agressivos, como quimioterapia intensiva e cirurgias, em comparação com pacientes mais idosos. Porém, de acordo com Cristiana, ser jovem ajuda no tratamento, mas não compensa um diagnóstico tardio.
“De fato, jovens aguentam mais tratamento, mas chegam mais tarde ao cuidado especializado e alguns tumores são biologicamente mais agressivos. O estágio ao diagnóstico continua sendo o principal determinante da remissão do câncer, independentemente da idade”, afirma a oncologista.
Após Deborah realizar a quadrantectomia (remoção do tumor de mama e de uma margem de tecido saudável), ela seguiu para sessões de quimioterapia. “Para mim, a parte mais difícil foi lidar com a dinâmica dos efeitos colaterais. Um tratamento longo, onde não temos o controle sobre o que vamos sentir e o que podemos fazer”, revelou.
“Tive muitas semanas difíceis, mas também intervalos. Nesses momentos, em que os efeitos colaterais eram mais suaves, eu vivia! Dancei, sai, fui à praia, viajei, trabalhei, dei curso e tantas outras coisas que me davam prazer”, disse a fotógrafa. “Alimentar minha memória de boas lembranças e ter uma rede de apoio foram os combustíveis para enfrentar os momentos mais difíceis”, complementou.
Ghelman realizou sua última sessão de quimioterapia no dia 23 de janeiro de 2026 e segue sendo acompanhada pela equipe oncológica. “A ficha ainda está caindo. O sentimento ainda está chegando. Acredito que leva um tempo para processar o que foi vivido, assim como um soldado que volta da guerra e está desarmando tudo aquilo que precisou ser erguido para atravessar o campo de batalha”, disse.
Sobre a Rede Américas
A Rede Américas é a segunda maior rede de hospitais do Brasil, com atuação em oito estados (SP, RJ, PR, BA, PE, MA, SE, RN) e no DF. São 27 hospitais e 42 unidades oncológicas, resultado da joint venture entre Dasa e Amil.
Com mais de 34 mil colaboradores, 40 mil médicos atuantes e mais de 4.200 leitos, une excelência clínica, inovação contínua e olhar humano. Guiada pelo propósito “Paixão por cuidar”, alia qualidade assistencial e segurança em cada etapa do atendimento aos pacientes.
