Morre jornalista Homero Fonseca
Soube, há pouco, da morte do jornalista Homero Fonseca, aos 77 anos, que perdeu a luta contra um câncer de pâncreas. Trabalhei com ele no Diário de Pernambuco e na Folha de Pernambuco. Um jornalista notável, talentoso e autor do livro “Tapacurá, viagem ao planeta dos boatos”.
O jornalista e escritor pernambucano Homero Fonseca, que faleceu, hoje, aos 77 anos, em decorrência de um câncer de pâncreas, será velado amanhã, no Cemitério Morada da Paz, em Paulista, na sala 4, das 12h às 18h. Referência em sua geração pelo compromisso com a verdade e a informação responsável, Homero deixa um legado no jornalismo e na literatura marcado pelo recente lançamento da segunda edição do romance “Jaraguá: O Herói Inzoneiro”, que mistura ficção, folclore e crítica social por meio de uma narrativa fantástica no Nordeste.
Nascido em Bezerros, o jornalista, autor de mais de 15 livros, incluindo romances, reportagens históricas, biografias e ficção infantojuvenil, deixa um vazio na cena cultural local. Era dono de uma escrita invejável, que misturava realismo mágico e memória histórica. as informações são do portal FolhaPE.
De acordo com o blog de Taís Paranhos, mesmo afastado dos eventos literários por questões de saúde, a presença de Homero seguia pulsando nas obras que atravessam séculos e imaginários. “Seu legado agora se transforma em referência permanente para quem busca compreender a força literária do Nordeste” escreveu a blogueira.
Ela lembra também a escrita dele, sempre carregada de símbolos, mitos e personagens que atravessam eras, consolidando uma identidade literária singular. “A morte do autor encerra um ciclo, mas abre espaço para que sua obra seja revisitada com a profundidade que merece. Pernambuco perde um de seus grandes narradores, mas ganha um nome eterno na literatura brasileira.”
Entre os destaques da carreira de Homero como escritor está “Roliúde: Um romance picaresco”, aventuroso e cinematográfico”, de 2011, que chegou ser adaptada para o teatro. Considerado um de seus maiores sucessos, narra as aventuras de Bibiu, um “Ulisses nordestino” na década de 1940, que viaja pelo interior contando enredos de clássicos do cinema hollywoodiano e brasileiro.
O jornalista Homero Fonseca, que nos deixou na tarde deste sábado (22) de agosto, foi, certamente, um dos repórteres de imprensa mais completos que o jornalismo entregou como profissional.
Homero era refinado. Tinha técnica de apuração sofisticada, disciplinada e exigente com o que entregava. Tão preciso que não demorou para ser chamado para produzir relatórios de empresas pernambucanas quando elas decidiram publicar algo mais que simples balanço.
Ele dava lustro a dados frios e capturava ações sociais dessas empresas, provocando a apresentação delas e mostrando gente naquilo. Na década de 80, seriam considerados os atuais relatórios de ESG, quando a sigla sequer existia. Essa precisão naturalmente o levou para o jornalismo econômico, onde acabou por fazer quase toda sua carreira.
Homero Fonseca já era profissional sindicalizado e atuante na entidade sindical, quando decidiu prestar vestibular na Unicap, formando-se na turma de 1979. Tinha uma outra marca que hoje poucas pessoas sabem. Ele cuidava da formação dos novos jornalistas. Não apenas na questão de apuração, mas também de ensinar conceitos de ética e respeito às pessoas e aos entrevistados.
Sim, Homero era duro e exigente. Cobrava dados precisos e, no tempo em que capturar informações de retaguarda exigia ir ao departamento de pesquisa, folhear centenas de páginas recortadas. Mas era generoso quando surpreendia os novatos assinando os primeiros textos, seja no Diário de Pernambuco, seja no Jornal do Commercio.
O jornalista era defensor da ideia, ainda hoje moderna, do editor decidir se assina ou não um texto como prêmio pelo seu trabalho de apuração, especialmente aos estagiários. Como um incentivo a “aprender a respeitar a língua, a ortografia e a apuração dos fatos.’
Homero Fonseca sempre se apresentou como um jornalista engajado de esquerda. Embora não filiado, esteve na linha de frente nas batalhas de rua em passeatas que percorriam o centro do Recife com os manifestantes atrás da megafaixa “Pelas Liberdades Democráticas”.
Ele esteve à frente de vários jornais, fez a capa deles, entre eles o Diário de Pernambuco, estruturou redações, além de ser primeiro nas atuais assessorias de comunicação de órgão públicos, entre eles a Fundação Joaquim Nabuco nos tempos de Gilberto Freyre.
E escreveu dezenas de relatórios anuais de bancos, entre eles o do Banorte, quando o banco de Pernambuco era um dos mais avançados em termos de tecnologia.
Como diziam seus amigos mais próximos, era o texto mais preciso do jornalismo pernambucano. Ele passou pelas redações dos três grandes jornais de Pernambuco e esteve à frente da Folha de Pernambuco, onde ‘aspeou’ uma frase que virou marca pela tragédia do desabafo de uma mãe ao ver seu filho morto numa operação policial: “Meu filho era uma alma sebosa”.
A diferença é que a expressão típica do noticiário policial veio suportada pela história de uma mãe pranteando a dor da morte pelo aparelho policial, resignando-se com o seu insucesso como progenitora.
Homero esteve na redação do Recife dos grandes jornais e participou de todas as coberturas da campanha da redemocratização numa carreira tão limpa e honesta que o fez ser lembrado e respeitado, pelo que elevou o nível da régua de produção do lugar por onde passou pelo seu padrão de entrega.
E isso é possível na rigorosa apuração do seu livro Tapacurá: Viagem ao planeta dos boatos que lançou em maio de 2011, analisando o boato de que Tapacurá havia estourado mais uma vez, assombrou a população recifense.
Na vida cultural, era um leitor voraz, freguês premium do icônico Livro Sete de Tarcísio Pereira e era uma espécie de orientador sobre o que um jornalista não poderia deixar de ler para ser um profissional de qualidade.
Muitos de nossos colegas leram John Reed e seu clássico Dez Dias que Abalaram o mundo; A Primeira Vítima, de Phillip Knightley, é um livro clássico de 1975, que analisa a história dos correspondentes de guerra e Esquerdismo A Doença Infantil do no Comunismo, de Vladimir Lénine indicados por Homero Fonseca.
E no Carnaval, ajudou a fundar o icônico Siri na Lata ao lado de Ricardo Carvalho e Paulo Brás pelas ruas de Olinda. Talvez esse fosse o único espaço onde o sério e carrancudo Homero se permitia mudar a fantasia.
Por isso, a partida de Homero, que deixou o jornalismo e enveredou pelos livros, nos deixa menores. Ele ajudou centenas de jornalistas a apurar melhor, escrever melhor e responder às demandas da sociedade.
O que a gente poderia chamar hoje de trabalhar pela melhoria da reputação do profissional de imprensa.
Talvez a maior contribuição de Homero Fonseca ao jornalismo tenha sido essa: formar uma geração inteira de profissionais que aprendessem a ser éticos. E lutar para que muitos não se perdessem pelo caminho.
E tudo isso apenas mostra o seu método de trabalho de jornalismo de precisão. Quando não existia a barra de rolagem no PC, o Google e o smartphone.
